domingo, 29 de agosto de 2010

O BRASIL SE DESINDUSTRIALIZA !!!!


Mesmo com economistas negando, fatia da indústria no PIB nacional é bem menor do que há 25 anos", escreve Luiz Carlos Bresser-Pereira, economista, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, 29-08-2010.

"Se a desindustrialização é evidente, por que economistas brasileiros insistem em procurar argumentos para negá-la?", pergunta o economista. E responde: "Porque são ortodoxos, porque pensam de acordo com o Consenso de Washington, e, por isso, apoiam a política macroeconômica instaurada desde 1992".
Eis o artigo.

No final dos anos 1940, a indústria representava 20% do PIB brasileiro, em 1985 chegou a 36%, em 2008 havia baixado para 16%! Não obstante, ainda existem economistas que negam que o país venha sofrendo desindustrialização.
Argumentam que a desindustrialização não seria apenas brasileira, mas de todos os países. Com o desenvolvimento econômico, a participação dos serviços sofisticados aumenta, e, em consequência, a participação da indústria de transformação cai.
Em 1970, a participação da indústria no PIB mundial era de 25%, em 2007 havia caído para 17%. Mas isto acontece aos países ricos que, a partir de certo ponto, passam a deslocar sua mão de obra da indústria para setores de serviços com valor adicionado per capita maior. Não é o caso do Brasil. Nossa desindustrialização é para produzir mais commodities.
O Brasil está se desindustrializando desde 1992. Foi em dezembro do ano anterior, no quadro de acordo com o FMI, que o Brasil fez a abertura financeira e, assim, perdeu a possibilidade de neutralizar a tendência estrutural à sobreapreciação cíclica da taxa de câmbio.
Em consequência, a moeda nacional se apreciou, as oportunidades de investimentos lucrativos voltados para a exportação diminuíram, a poupança caiu, o mercado interno foi inundado por bens importados, e, assim, muitas empresas nacionais eficientes deixaram de crescer ou mesmo quebraram.

Estava desencadeada a desindustrialização prematura da economia brasileira.
Se a desindustrialização é evidente, por que economistas brasileiros insistem em procurar argumentos para negá-la?
Porque são ortodoxos, porque pensam de acordo com o Consenso de Washington, e, por isso, apoiam a política macroeconômica instaurada desde 1992.
Não obstante critiquem o deficit público (como também eu critico), propõem juros altos (para combater a inflação e atrair capitais), deficit altos em conta-corrente (para "crescer com poupança externa"), deficit público compatível com o deficit em conta-corrente, e câmbio apreciado.
Em outras palavras, em nome da ortodoxia, defendem irresponsabilidade cambial, e, não obstante a retórica, a irresponsabilidade fiscal (considerada a hipótese dos deficits gêmeos). E condenam o país a taxas de poupança e investimento baixas.
Quando a ortodoxia percebe que a taxa resultante do mercado é sobreapreciada, defende-se afirmando que administrar a taxa de câmbio é "impossível".
Não é o que mostra a história. Para administrá-la é necessário
(1) impor imposto na exportação de bens que dão origem à doença holandesa;
(2) usar os recursos fiscais decorrentes para zerar o deficit público;
(3) baixar a taxa de juros real para o nível internacional; e
(4) estabelecer barreiras às entradas de capitais não desejados.
Neste quadro, a renda dos exportadores de bens primários será mantida porque o imposto poderá e deverá ser compensado centavo por centavo pela desvalorização.
O Brasil já praticou essa política no passado. Outros países a estão aplicando no presente.
Se a adotarmos, o Brasil poderá voltar a ter taxas de crescimento pelo menos duas vezes maiores do que aquelas que prevaleceram desde 1992.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

China e Índia protagonizam a disputa do século

Podemos afirmar que neste mundão caracterizado pela DESORDEM MUNDIAL, temos marcas que mostram interesses conflitantes entre dois gigantes, do ponto de vista populacional, e econômico...
Dois gigantes asiáticos têm chamado a atenção do mundo política e economicamente: China e Índia. Em termos de tamanho e população, cada um é um continente. Como os países estão traçando uma ascensão em conjunto, suas relações prometem moldar a política mundial. No entanto, o conflituoso relacionamento entre as duas nações pode prejudicar esse crescimento constante.

Este é um território desconhecido que deve ser visto em termos de décadas, não anos. Duas décadas atrás o Japão era visto como o principal rival para a América. Países tão grandes e complicados quanto a China podem entrar em colapso devido às suas próprias contradições. A curto prazo, os relacionamentos estrangeiros da China podem importar mais, até mesmo dentro da Ásia. Eles podem, por exemplo, ser um grande risco de conflito entre a China e o velho, mas ainda poderoso Japão. As potências ocidentais ainda exercem uma influência considerável.
Autocratas de Pequim não respeitam a Índia por sua democracia confusa e indecisa. Mas eles devem vê-la como uma rival séria e de longo prazo, especialmente se ela continuar a se inclinar em direção à América. Recentemente, a Índia era tão rica quanto a China, em termos de rendimento nacional per capita. Em seguida, a China cresceu tão rapidamente, que parecia inalcançável. Mas as perspectivas de longo prazo indianas agora parecem ser mais fortes. Enquanto a China está prestes a ver a sua população em idade ativa encolher, a Índia está apreciando a sua mão de obra, que trouxe crescimentos sustentados em outras partes da Ásia. Já não é inconcebível que seu crescimento ultrapasse o da China por um tempo considerável. Ela tem a vantagem da democracia, pelo menos como uma válvula de pressão para o descontentamento. E o exército da Índia perde em números apenas para o chinês e o norte-americano.
A perspectiva de uma nova guerra entre a Índia e a China é, desde já, algo que perturba o sono de nacionalistas da imprensa chinesa e coroneis aposentados da Índia. Mas o século 20 ensinou ao mundo que conflitos flagrantes de interesse podem tornar-se guerras imprevisíveis, e de consequências terríveis. Para a China, confiar na prosperidade e na democracia para resolver os problemas não parece prudente. Duas coisas precisam ser feitas.
Em primeiro lugar, a lentidão dos progressos para uma solução de fronteira precisa acabar. A responsabilidade principal é da China.
Ela já resolveu difíceis disputas de fronteira com a Rússia, Mongólia, Mianmar e Vietnã. Certamente, não deve ser tão difícil tratar com a Índia.
Isso leva a uma segunda necessidade, aquela que levou a Europa a duas guerras mundiais, até chegar perto de uma solução: a falta de instituições asiáticas sérias para fazer tais acordos. Seria melhor se a China, a Índia e o Japão iniciassem a construção de fóruns regionais para canalizar suas rivalidades inevitáveis em colaboração e competição saudáveis.
Globalmente, o sistema baseado em regras que o Ocidente criou na segunda metade do século XX trouxe grandes benefícios para os países emergentes. Mas isso reflete uma ordem mundial fora de moda. China e Índia deveriam ter um papel maior na definição das regras que irão reger o século XXI, o que exige concessões do Ocidente. Mas exige também um compromisso com uma ordem baseada em regras internacionais por parte da China e da Índia. Fazer um esforço sério para resolver suas desavenças próprias pode ser um bom começo.

domingo, 22 de agosto de 2010

COISAS DE CHINÊS: A SÍNDROME DE SER RICO... E INFELIZ....

A economia do gigante asiático bate todos os recordes. Mas 92% dos seus habitantes se diz descontentes. E Pequim descobre que é possível ser rico e infeliz.

A reportagem é de Giampaolo Visetti, publicada no jornal La Repubblica, 19-08-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
A China volta a dominar o mundo e descobre-se como exemplo de sucesso, mas os chineses se sentem infelizes. Ninguém nunca foi tocado pela dúvida de que a felicidade, com o retorno de um Confúcio pop e a nostalgia de um Mao Zedong vintage, o estivesse conquistando. Tal coisa, ainda mais em nível coletivo e sob forma de estado de ânimo permanente, não é permitida, como se sabe.
A ascensão da China à cúpula do poder econômico, o triunfo de um modelo inédito e inimitável, o crescimento da classe média mais numerosa do planeta induziram, porém, à inconfessável suspeita de que os chineses, nova unidade de medida do humor global, também estivessem começando a conhecer pelo menos algumas instâncias de satisfação.
Surpreendentemente, uma pesquisa da Tsinghua University de Pequim confirmou aos chineses aquilo que eles veem cotidianamente e tranquilizou o resto do mundo com relação àquilo que, todos os dias, espera-se secretamente: a China pode ultrapassar o Japão e insidiar os EUA, mas continua sendo uma "nova potência" fundada na infelicidade.
O fato de que a notícia tenha sido publicado no jornal China Daily, versão em inglês do jornal do partido, testemunha que Pequim, depois de um famoso artigo publicado entre as polêmicas do ano passado, também começa a se colocar o fútil problema do destino moral de 1,4 bilhão de pessoas.
Durante décadas, depois da Longa Marcha e ainda mais a partir da Revolução Cultural, as perguntas sobre o bem-estar individual foram consideradas um vício burguês e um luxo proibido. Declarar-se "infeliz" era contrarrevolucionário, correspondia a admitir uma patologia mental individualista e merecia a internação em um instituto psiquiátrico.
Era um dos fundamentos da propaganda comunista: a China era feliz por definição e obviamente estava pronta para a glória internacional. Por isso, despertou uma certa perturbação, ao lado da notícia do enésimo recorde financeiro atingido pela nação, ler que 92% dos seus habitantes ousa hoje confessar que "são infelizes".
Não se pode fugir da generalidade de um teste, embora acadêmico, sobre a intimidade de um sentimento misterioso. Mas o fato de que nove em cada dez chineses denunciem a falência emotiva de um empreendimento econômico e político sem precedentes históricos induz a algumas dúvidas, senão sobre o seu sucesso, pelo menos sobre a sua firmeza.
Segundo os pesquisadores da capital que sondaram uma amostra representativa de 100 mil chineses em Pequim, Xangai, Shenzhen e em dez vilarejos rurais, o mal-estar do país aumenta mais do que o mítico PIB, do qual todos dependemos. Outros 57% da população se declaram "extremamente descontentes", e 70% se consideram "assustados com as dificuldades da vida". Cerca de 39% estão entregues à insônia, e oito em cada dez assalariados são dependentes de remédios que ajudam a manter as relações com os colegas. Só 3% se arriscam a dizer que estão "satisfeitos".
Se uma resposta semelhante surgisse em Estocolmo, ou em Paris, ou em San Francisco, ninguém ficaria perturbado por um esnobismo psicológico perfeito para uma revista de fim de semana, suculento fruto de tédio e saciedade. Na China, pelo contrário, é diferente, e uma declaração pública de infelicidade, que afligiria pelo menos um decisivo sétimo dos habitantes da Terra, é levada a sério.
"Pela primeira vez – diz Kaiping Peng, diretor do departamento de psicologia da Tsinghua –, os chineses se confrontam com a inquietação do liberalismo. São atormentados pelo pesadelo da carreira, pela obsessão pelo dinheiro, pela concorrência no trabalho, pela precariedade de toda meta alcançada. Descobrem que uma "vida americana" comporta um "consumo emotivo made in USA".
Os adultos não estão preparados para a formação ideológica; os jovens, para os limites educativos. O aparente paradoxo de deprimir-se por um excesso de vitórias faz com que o índice de felicidade do país seja o único, nos últimos dez anos, a ter se retraído: caiu hoje para 2,17 com relação a um máximo de 5, entre os mais baixos do mundo e no último lugar tanto entre as potências econômicas, quanto entre as nações em desenvolvimento.
Psicólogos e sociólogos, na discreta sugestão do partido-Estado, começam assim a se perguntar por que o sucesso internacional, a difusão da ambição ao luxo, o próximo recorde da produção e das exportações, o monopólio no preço da energia, uma influência mundial jamais alcançada no passado não são suficientes para injetar uma modesta dose de alegria popular.
O Ocidente democrático sabe que não bastam automóveis e geladeiras para fugir da sua própria sombra e aprendeu que a tristeza de quem vota também é um capital. Para o Oriente autoritário, onde as urnas nunca abrem, pelo contrário, a expressão do incômodo é um toque de trombeta e equivale ao anúncio de uma possível, embora remota, instabilidade.
"Motivar racionalmente a infelicidade do sucesso – diz Ren Xiaoping, professor do Instituto de Sociologia da Academia das Ciências – não é fácil. Depois de séculos de vida modesta, o igualitarismo é um traço quase genético do povo. A relação com a riqueza, em uma nação que acumulou o recorde dos bilionários com menos de 30 anos, provoca um curto-circuito existencial. Não se aceitam as diferenças, e a inveja produz rancores ainda mais dolorosos do que a exploração".
Os professores da Tsinghua, movidos depois da humilhante corrente de suicídios entre os operários da Foxconn de Shenzhen, onde, além dos produtos Apple, são produzidos quase todos os aparelhos eletrônicos para a comunicação, procuraram explicar as razões que impedem que os chineses se deixem contagiar pela alegria dos seus líderes. E surgiu a outra face do triunfo: o drama esquecido de uma "depressão nacional crônica". Nada de político, ou pertencente a uma vontade de liberdade, ou de aspiração à democracia. As pessoas, muito mais concretamente, sentem-se infelizes por causa de salários insuficientes, condições de trabalho insuportáveis, concorrência profissional impiedosa, desigualdades sociais explosivas e empréstimos para a casa própria sufocantes.
Cerca de 500 milhões de migrantes das zonas rurais sofrem de "desenraizamento", 600 milhões de residentes metropolitanos sofrem de "solidão", 700 milhões de idosos sofrem com o "abandono e ausência de assistência médica", 300 milhões de estudantes sofrem de "ansiedade por causa das prestações e medo do desemprego", 400 milhões de operários sofrem com a "expulsão da família e tratamento desumano".
Uma pesquisa do Horizon Research Group localizou os "três pontos fracos" do sucesso da China: os jovens, as mulheres e os operários emigrados. "Os primeiros – diz o pesquisador Wang Dengfeng – são obrigados a colocar a vida em jogo no gaokao, o exame de admissão à universidade. Ele quase se fundamenta na corrupção, mas quem fracassa está condenado, e todos os anos, em junho, registram-se centenas de suicídios. As segundas são a única categoria na China que, nos últimos 30 anos, não obtiveram maiores direitos. Nascem indesejadas, vivem abandonadas e obrigadas a suportar aquilo que resta da família. Não é por acaso que o nushu, a língua secreta das mulheres infelizes, está voltando à moda".
Por fim, o operário chinês, espinha dorsal extrema do mundo em crise. "Pelo menos 30 mil operários – diz Geng Shen, professor de economia do trabalho na Universidade de Xangai – morrem a cada ano por causa do karoshi, a síndrome do supertrabalho crônico. É a patologia que minou a produtividade no Japão e na Coreia do Sul. Trabalhar 12 horas por dia, comer e dormir no escritório ou dentro da fábrica, corta pela metade a expectativa de vida. O fenômeno atinge particularmente os chineses entre os 20 e os 35 anos, especialmente se funcionários das multinacionais estrangeiras".
Contra o novo "vírus da deslocalização", justamente a Foxconn anunciou na última quarta-feira uma medida extrema: lições de otimismo. Para evitar que muitos funcionários se joguem dos telhados dos estabelecimentos, 800 mil operários deverão fazer "cursos empresariais de reforço mental", para "aprender a valorizar a vida".
O problema, para Pequim, é compreender se o preço capitalista da "grande corrida" proletária, que segundo a Organização Mundial da Saúde, produz 3,5 milhões de tentativas de suicídio por ano e 300 mil vítimas, é justificado pelos resultados. A Europa e os EUA, descobrindo o seu rosto clandestino refletido em um espelho, se perguntam até até quando 250 dólares por mês por turnos de robôs, nos sete dias da semana, manterão aceso o seu motor deslocalizado do consumismo global.
Todos percebemos, pelo contrário, uma modesta e infelizmente confortável lição de justiça. Aceitar viver continua sendo uma patente inviolada, uma alquimia que nem a China aprendeu a produzir. A felicidade, sendo inalcançável, não pode ser imitada: e nem a força do Dragão pode ultrapassá-la.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Compra de empresas brasileiras por capital externo dobra e bate recorde

E A DEPENDÊNCIA EXTERNA CONTINUA... OS ATRATIVOS SÃO DEMAIS... E LENDO, VOCE ENTENDERÁ OS PORQUES DO SUCESSO BRASILEIRO...

O bom momento da economia brasileira despertou de vez o apetite de grupos estrangeiros por empresas nacionais. Pesquisa da KPMG do Brasil mostra que o número de aquisições de empresas brasileiras por estrangeiros mais do que dobrou no segundo trimestre, passando de 21 transações entre janeiro e março para 56 operações entre abril e junho — o maior número já registrado num segundo trimestre desde 1994, quando o levantamento começou a ser feito. Em todo o primeiro semestre, foram 77 negócios ao todo, um incremento de 64% em relação a 47 aquisições dos primeiros seis meses de 2009.

A reportagem é de Ronaldo D’Ercole e publicada pelo jornal O Globo, 19-08-2010.
Transações como a entrada da Portugal Telecom na Oi, com a benção do BNDES e dos fundos de pensão, no final de julho, e a fusão da TAM com a LAN, anunciada semana passada e que resultará numa companhia de controle majoritário chileno, comprovam o ostensivo interesse pelo país.
— Fusões e aquisições são operações que precisam de cenários de certa estabilidade, pois exigem investimentos de longo prazo. Com a crise, a partir de 2008, houve um represamento de projeto. Agora, com a perspectiva muito boa para o Brasil, isso muda — diz Luís Motta, sócio da KPMG especialista em fusões e aquisições

Americanos e chineses lideram
Em 2008, quando a crise se fazia sentir mais forte no hemisfério Norte, o executivo lembra que das 663 operações de fusão e aquisição registradas pela KPMG no país, 72% tinham compradores brasileiros. Depois os negócios encolheram. O segundo trimestre, segundo Motta, marca a volta dos estrangeiros ao país, com predomínio de americanos (27) e chineses (10) nas aquisições no primeiro semestre.
— Não existe uma desnacionalização e, relativamente, as coisas estão equilibradas, porque as empresas brasileiras estão também num ritmo forte de internacionalização — observa Motta, referindose às 38 aquisições feitas por brasileiros no exterior no período.
Luis Afonso Lima, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), concorda e diz que o que há é um processo de internacionalização da economia brasileira.
A maior concentração de estrangeiros, observa, se dá em setores em que a competição cada vez mais se dá em nível global:
— A competição internacional, em setores como o das telecomunicações, por exemplo, contempla e demanda por consolidação de empresas devido aos altos investimentos em tecnologia exigidos e à necessidade de escala.
Ex-presidente da Sobeet e professor da PUC de São Paulo, o economista Antônio Corrêa de Lacerda ressalta justamente a importância de o país definir estratégias para que a internacionalização de sua economia se dê de forma saudável.
Corrêa cita o fato de que ter sócio estrangeiro implica na remessa de dólares para fora, que afeta as contas do país. Mas o principal desafio consiste em garantir que a operação brasileira participe dos projetos de desenvolvimento e inovação definidos pelas matrizes que aqui se instalam com as aquisições de empresas locais.
— A internacionalização traz desafios e o risco que corremos é ficar à margem das inovações, como meros fabricantes de produtos — diz Lacerda, que também rechaça a visão de um processo de desnacionalização no país.
— As empresas brasileiras estão se internacionalizando também. É a outra face do mesmo processo. É um jogo de mão dupla.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

MESQUITA GROUND ZERO: RELAÇÕES COMPLEXAS E CHOQUE DE CIVILIZAÇÕES ?

A polêmica que se debate há meses no coração de Manhattan agora se espalhou até se transformar em um "choque de civilizações" em nível nacional. Muitos conselheiros haviam sugerido a Obama que se mantivesse à parte: o Islã é um campo minado para esse presidente, que muitos norte-americanos de direita suspeitam ser um estrangeiro e cripto-muçulmano. Pelo contrário, Obama repudia a prudência tática e faz da mesquita um teste dos valores sobre os quais os EUA estão fundados.

A reportagem é de Federico Rampini, publicada no jornal La Repubblica, 15-08-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Ele falou sobre isso justamente no jantar solene do Iftar [refeição que quebra o jejum do Ramadã], que ocorreu na Casa Branca, durante o Ramadã, durante uma centena de expoentes da comunidade islâmica norte-americana. "Entendo as emoções que estão em jogo – disse Obama –, porque o Ground Zero tornou-se um campo sagrado. Mas esta é a América, e a nossa atitude com relação à liberdade religiosa deve ser indestrutível. O princípio de que os cidadãos de todas as fés são bem-vindos entre nós é essencial para definir aquilo que somos".

Na direita, as reações são duras. Com relação à atitude com relação ao Islã, o país se divide. As pesquisas revelam que 53% dos nova-iorquinos são contrários à mesquita, e só 34% favoráveis. A oposição é ainda mais forte em nível nacional, 68% de opiniões negativas. Sarah Palin, ex-candidata a vice-presidente, fala de uma "punhalada no coração da América". Um outro líder histórico da direita, Newt Gingrich, denuncia "a timidez e a passividade das elites" diante da ameaça do fundamentalismo islâmico.

No centro do escândalo, está o projeto do Cordoba Institute, que selecionou um terreno privado a duas quadras de distância da ex-cratera das Torres Gêmeas. Com 100 bilhões de dólares de investimento, financiado pela comunidade islâmica, o Cordoba Institute construiria um edifício de 13 andares destinado a hospedar o lugar de oração, um centro cultural, além de "um memorial e um espaço de meditação consagrado ao 11 de setembro".

Antes ainda de Obama, para fazer com que o projeto avançasse, uma pessoa decisiva foi Michael Bloomberg. O prefeito de Nova York, de família judaica, fez dele uma batalha-símbolo. "Vetar a mesquita – disse – seria incoerente com a melhor parte de nós mesmos. Não é uma forma de honrar as vítimas do 11 de setembro. Os policiais e os bombeiros que acorreram aos arranha-céus em chamas não se perguntaram de que religião eram os seres humanos lá dentro".

A escolha de campo de Bloomberg tem raízes biográficas. O prefeito lembra que, na sua infância em Massachusetts, seus pais tiveram que contratar um advogado cristão como fiador para poder comprar sua casa, de tão discriminados que eram os judeus. Tendo crescido em uma minoria, Bloomberg não aceita que outros possam sofrer as mesmas intolerâncias. Ele também tem uma preocupação política. Administra uma metrópole com 100 mesquitas e uma comunidade islâmica de 700 mil pessoas, mais de um décimo de todos os muçulmanos que vivem nos EUA.

Nova York conseguiu evitar tensões étnico-religiosas depois do 11 de setembro. Essa "paz metropolitana" está em risco por causa da escalada de polêmicas sobre a mesquita do Ground Zero, que a intervenção da Casa Branca certamente não aplaca. Um dos mais notáveis intelectuais da direita, Charles Krauthammer, está indignado por causa das escolhas de Obama e Bloomberg: "No Ground Zero, foi perpetrado um massacre por obra de seguidores de uma versão particular do Islã. Construir uma mesquita ali é um sacrilégio. Não é uma questão de liberdade religiosa, é uma questão de sensibilidade. João Paulo II ordenou que as irmãs carmelitas deixassem o convento de Auschwitz por uma escolha de respeito ao lugar".

Surpreendentemente, quem também ataca Bloomberg é uma importante organização contra o antissemitismo e o racismo, a Anti-Defamation League, que pediu "prioridade aos sentimentos das famílias das vítimas". Divididas também estas: a seção de cartas do New York Times, com opiniões prós e contras em proporções iguais, é a fotografia fiel do dilema que divide os sobreviventes do 11 de setembro e os familiares sobreviventes.

O incêndio ideológico se espalha bem além de Manhattan. Em Temecula, na Califórnia, os seguidores do Tea Party (a ala ativista e intransigente da direita) profanam com cachorros o lugar onde deveria ser construída uma mesquita. Em Sheboygan, no Wisconsin, pastores protestantes entram em confronto físico com os muçulmanos. Em Murfreesboro, no Tennessee, uma manifestação acusa os islâmicos de querer substituir a Constituição dos Estados Unidos pela Sharia, a lei do Alcorão. Todos os projetos de novas mesquitas tornam-se um episódio, um foco potencial de conflito. "De repente, mudou o nível de hostilidade – observa Ishan Bagby, estudioso do Islã da Universidade do Kentucky –, uma parte da sociedade norte-americana se convenceu de que o Islã está no invadindo, ameaça os nossos valores".

Como em Nova York, em todos os EUA a contraofensiva tem protagonistas surpreendentes. Em Temecula, Larry Slusser, líder dos mórmons e que dirige o conselho inter-religioso, sai às ruas em favor da mesquita local: "São americanos, têm o direito de praticar a sua fé assim como nós".

Não importa se as pesquisas o levavam ao silêncio, a uma tática de baixo perfil, Obama sentiu a necessidade de dizer alto e forte de que lado está. Apoiando a mesquita em Ground Zero, o presidente retomou a linha do seu discurso na Universidade do Cairo, em junho de 2009, em que anunciou um novo diálogo com o Islã mundial: "A liberdade na América – disse então – é indivisível da liberdade religiosa, por isso há mesquitas em cada um dos Estados da União, mais de 1,2 mil em todo o país. O Islã faz parte da América".

Quando a direita contestou-lhe o fato de que, na Arábia Saudita, não se pode construir uma igreja, Obama respondeu: "A tolerância define a América e nos torna mais fortes". A sua aposta é no Islã moderado: o imã Feisal Abdul Rauf, o promotor da mesquita do Ground Zero, tornou-se a testemunha do governo dos EUA em todo o Oriente Médio, em missão para contar a respeito dos EUA e combater os profetas do ódio.
"Nos EUA, a liberdade é amiga da religião, qualquer que seja. Favorece e protege a sua expressão concreta, como a construção de um templo."
A opinião é de Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio, em artigo publicado no jornal Corriere della Sera, 15-08-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.

Neste nosso tempo secularizado, os lugares de oração às vezes causam discussões. Em Nova York, foi aprovado o projeto de uma mesquita e de um centro islâmico a dois passos do Ground Zero (nesse sábado chegou o apoio do presidente Obama). Há quem grite pela profanação do 11 de setembro, embora entre os parentes dos falecidos não haja unanimidade. Essa reação revela uma forte convicção: aquele terrível atentado deveu-se ao Islã em sentido global.
A oposição à mesquita em Lower Manhattan evidencia um problema da história dos primeiros dez anos do século XXI. O desafio islâmico ao Ocidente foi o elemento que caracterizou esse período ou se trata de uma simplificação, apesar das graves dificuldades entre o Ocidente e os muçulmanos? Com um pouco de distância cronológica do 11 de setembro, é uma discussão que deve ser totalmente retomada.
Nos EUA, porém, em novembro, irão ocorrer as eleições da metade do mandato. São sempre difíceis para um presidente. Um político é levado a seguir os humores e os medos de um eleitorado desorientado no mundo global. É um problema geral, não só norte-americano. Pelo contrário, o prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, aprovou o projeto da mesquita, lembrando que abrir uma sinagoga e uma igreja católica justamente em Manhattan foi uma difícil conquista da liberdade religiosa, há dois séculos.
O presidente Obama não ficou de fora. Interveio não tanto por simpatia pelo Islã, do qual foi muitas vezes acusado. No Cairo, em junho de 2009, havia afirmado: "A América e o Islã não devem estar em competição". Palavras julgadas "politically correct", em um mundo mêmore do choque de civilizações.
Neste sábado, o presidente falou como grande líder ocidental: "Estamos nos EUA, e o nosso empenho em favor da liberdade de culto deve ser inalterável". E sublinhou com orgulho: "Esta é a América!". Lançou um desafio aos terroristas, assassinos dos muçulmanos, contestando-lhes como representantes do Islã: "Freedom" foi a palavra-chave do discurso: "Os nossos inimigos não respeitam a liberdade religiosa".
Nos EUA, a liberdade é amiga da religião, qualquer que seja. Favorece e protege a sua expressão concreta, como a construção de um templo. Obama rejeita que a liberdade religiosa seja sacrificada pelo medo a poucos passos de onde está crescendo a Freedom Tower, um santuário da memória e da dor.
Mas as questões do lugar de culto sempre são complicadas. Em tanta polêmica, surgem os cristãos ortodoxos com um pedido. A sua igreja foi destruída pela queda do World Trade Center, e ninguém se ocupa disso. Porque, no fundo, esta é Nova York: uma grande pluralidade de lugares de oração em um mundo em que a religião é vida concreta. A religião também é oração. E a oração, antes de tudo, é invocação a Deus e não ódio.

Além disso, em torno do Ground Zero, como se vê na próxima e pequena igreja episcopaliana, há uma grande necessidade de oração diante do mal cometido, na lembrança da dor e da incerteza do futuro.
Para o aclamado autor paquistanês de "O fundamentalista relutante" (Ed. Alfaguara, 2007), Mohsin Hamid, 39 anos, metade dos quais transcorridos nos EUA, o êxito do debate sobre a "mesquita da discórdia" é decisivo: "Se verdadeiramente queremos combater o terrorismo – defende –, devemos defender a ideia de igualdade, a liberdade de culto e o centro islâmico do Ground Zero".

A reportagem é de Rosalba Castelletti, publicada no jornal La Repubblica, 15-08-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.
Senhor Hamid, o que pensa sobre as argumentações dos detratores da mesquita?
Defender que construir uma mesquita a duas quadras do Ground Zero é ofensivo com relação às vítimas do 11 de setembro quer dizer culpabilizar todos os muçulmanos pelo 11 de setembro. Mas o 11 de setembro não se refere a todos os muçulmanos. Refere-se a uma organização terrorista que ataca e mata também os muçulmanos. Se considerarmos uma mesquita como uma ofensa, então só fomentaremos a equivalência entre "muçulmano" e "inimigo", como se faz todos os dias com os controles nos aeroportos ou com as prisões e os interrogatórios arbitrários.

O presidente dos EUA também reforçou isso: "A causa da Al Qaeda não é o Islã".
Assino embaixo de tudo o que Obama disse nesse sábado. Devemos reforçar a liberdade culto. E devemos fazer isso não só nos EUA, mas em todo o mundo. A liberdade de religião é um valor que deve ser promovido em ambas as direções: nos países de maioria muçulmana, como o Paquistão onde eu me encontro agora, e nos países de maioria cristã, como os EUA. Há quem se lembre de que alguns países muçulmanos não dão aos cristãos a liberdade de religião e questione por que os EUA deveriam proteger a dos muçulmanos. Eu respondo: os EUA não são a Arábia Saudita. Por que se quer copiá-la? Os EUA deveriam ser um exemplo. Devemos promover a tolerância em todos os lugares, em vez de dar passos para atrás.

Entre os inimigos da mesquita, está também a ex-candidata à vice-presidência Sarah Palin...
No século XVIII, nos EUA, se combateu a guerra civil entre o Sul e o Norte, e o Sul escravagista perdeu. Agora, está acontecendo uma coisa semelhante. Quem se confronta não são mais o Norte e o Sul, mas duas Américas: uma igualitária e outra não. A boa notícia é que, há dois anos, os EUA representados por Palin perderam, e os representados por Obama venceram. Não sei o que vai acontecer no futuro. Hoje, não há mais uma discriminação aberta contra os negros. A intolerância está procurando novas formas para se expressar e se deslocou contra os muçulmanos.

Por que justamente contra os muçulmanos? É só culpa do 11 de setembro?
O 11 de setembro permitiu que essas novas formas de discriminação se expressassem. O objetivo dos terroristas era o de pôr ocidentais contra muçulmanos, e muçulmanos integralistas contra os liberais, para que se fizesse a guerra. E é o que está acontecendo. Se não quisermos fazer o jogo dos terroristas, devemos promover um universo de valores igualitários. Devemos nos perguntar se queremos acreditar em um mundo onde a metade das pessoas faz guerra contra a outra, ou se queremos viver pacificamente. Se queremos a guerra, então devemos ser contrários à mesquita. Se queremos acreditar na humanidade, devemos defendê-la.

Quem o senhor pensa que vai vencer? Quem se foca nas divisões ou quem aposta na humanidade?
Acredito que, no futuro, as pessoas continuarão migrando, mas acredito também que encontraremos uma forma para viver juntos. A convivência será um desafio para todos, ocidentais e muçulmanos. No fim, profundamente, todos, ateus e crentes, teremos que reconhecer que os seres humanos são todos iguais. Os terroristas querem matar esse sentimento de igualdade. Nós devemos impedi-los. Seria uma pena se justamente os EUA, que são uma das nações mais liberais do mundo, mudassem de percurso.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Esta década está sendo, no mundo inteiro, a mais quente em mil anos

Embora não possa ser cientificamente comprovado (ou, a propósito, negado) que o aquecimento mundial causou algum evento extremo em particular, podemos dizer que o aquecimento mundial muito provavelmente torna vários tipos de condições meteorológicas extremas mais frequentes e mais intensas", escreve Stefan Rahmstorf, professor de Física dos Oceanos na Universidade de Potsdam e membro do Conselho Consultivo Alemão sobre Mudanças no Mundo, em artigo publicado pelo jornal Valor, 17-08-2010.
Segundo o cientista, "com ações débeis, como as prometidas pelos governos na conferência de Copenhague em dezembro do ano passado, estaremos a caminho de 3º ou 4º Celsius de aquecimento mundial. Isso provavelmente ultrapassará a capacidade de adaptação de muitas sociedades e ecossistemas. E se nada for feito, o planeta poderá até mesmo aquecer entre 5º e 7º Celsius até o final deste século - e ainda mais, depois. Marchar conscientemente nesse caminho seria insano".

Eis o artigo.
Este verão tem apresentado extremos relacionados com o clima na Rússia, Paquistão, China, Europa, no Ártico - e muitos outros lugares. Mas terá isso algo a ver com o aquecimento mundial, e serão as emissões humanas as culpadas?
Embora não possa ser cientificamente comprovado (ou, a propósito, negado) que o aquecimento mundial causou algum evento extremo em particular, podemos dizer que o aquecimento mundial muito provavelmente torna vários tipos de condições meteorológicas extremas mais frequentes e mais intensas.
Durante semanas, a Rússia central esteve nas garras da sua pior onda de calor na história, que provavelmente causou milhares de mortes. Como resultado da seca e do calor, mais de 500 incêndios grassaram, descontrolados, sufocando Moscou com fumaça e pondo em risco várias instalações nucleares. O governo russo proibiu as exportações de trigo, o que fez disparar os grãos em todo o mundo.
Enquanto isso, o Paquistão está lutando com inundações sem precedentes que já mataram mais de mil pessoas e afetaram outros milhões. Na China, as enchentes já mataram mais de mil pessoas e destruíram mais de um milhão de casas. Em menor escala, países europeus como a Alemanha, Polônia e República Checa também sofreram graves inundações.
Enquanto isso, as temperaturas mundiais nos últimos meses estiveram em seus níveis mais elevados em registros que remontam a 130 anos. A capa gelada do mar Ártico atingiu seu mais baixo nível médio registrado num mês de junho em todos os tempos. Na Groenlândia destacaram-se dois enormes pedaços de gelo em julho e agosto.

Haverá uma inter-relação entre esses eventos?
O simples exame de eventos extremos individuais não revelará sua causa, assim como assistir algumas cenas de um filme não revelam sua trama. Mas, examinadas num contexto mais amplo, e usando a lógica da física, partes importantes da trama podem ser entendidas.
Esta década foi marcada por alguns extremos surpreendentes. Em 2003, a onda de calor mais intensa em uma geração quebrou recordes anteriores de temperaturas por grande margem e causou 70 mil mortes na Europa. Em 2005, a mais intensa temporada de furacões já testemunhada no Atlântico devastou Nova Orleans e quebrou recordes em termos do número e da intensidade de furacões.
Em 2007, incêndios sem precedentes assolaram toda a Grécia, quase destruindo a antiga Olímpia. E a Passagem Noroeste, no Ártico, ficou sem gelo pela primeira vez na memória viva. No ano passado, mais de cem pessoas morreram em queimadas na Austrália, que surgiram após seca e calor recordes.
Esse conjunto de eventos climáticos recordistas poderia ser apenas uma série surpreendente de azar. Mas isso é extremamente improvável. É muito mais provável que seja resultado de um aquecimento climático - uma consequência de esta década ser, no mundo inteiro, a mais quente em mil anos.
Todo clima é influenciado por energia, e o sol, em última instância, fornece essa energia. Mas a maior mudança na conta corrente energética terrestre deve-se, de longe, à acumulação, na atmosfera, de gases causadores do efeito de estufa, que limitam a transmissão de calor para o espaço. Devido às emissões de combustíveis fósseis, há hoje um terço a mais de dióxido de carbono na atmosfera do que em qualquer momento há pelo menos um milhão de anos, como revelou a perfuração da mais recente amostra de gelo na Antártida.
As mudanças no balanço energético do planeta causadas por variações solares são pelo menos dez vezes menor, em comparação. E elas vão na direção errada: nos últimos anos, o sol tem estado mais fraco desde que as mensurações por satélites começaram em 1970. Assim, quando eventos climáticos extremos sem precedentes ocorrem, o principal suspeito é, naturalmente, a maior mudança na atmosfera ocorrida no curso dos últimos cem anos - que foi causada por emissões humanas.
O fato de ondas de calor como a registrada na Rússia se tornarem mais frequentes e extremas num mundo mais quente é fácil de compreender. A ocorrência de chuvas extremamente fortes também se tornou mais frequente e intensa em um clima mais quente, devido a outro simples fato da física: ar quente pode reter mais umidade. Para cada grau Celsius de aquecimento, 7% mais água fica disponível para despencar de massas de ar saturado. O risco de secas também aumenta com o aquecimento - mesmo onde a chuva não diminui, maior evaporação seca o solo.
O efeito do dióxido de carbono também pode alterar os padrões dominantes da circulação atmosférica, o que exacerba extremos de calor, secas ou chuvas em algumas regiões, reduzindo-os em outras. O problema é que a redução nesses extremos aos quais já estamos bem adaptados resulta em benefícios apenas modestos, ao passo que novos extremos aos quais não estamos adaptados podem ser devastadores, como mostram os recentes acontecimentos no Paquistão.
Os eventos deste verão mostram como as nossas sociedades são vulneráveis aos extremos climáticos. Mas o que vemos agora está acontecendo após apenas 0,8º Celsius de aquecimento mundial. Com ação rápida e decisiva, ainda podemos limitar o aquecimento mundial a um total de 2º Celsius, ou um pouco menos. Até mesmo esse grau aquecimento exigiria enorme esforço de adaptação a condições climáticas extremas e crescentes níveis do mar, que precisa começar agora.
Com ações débeis, como as prometidas pelos governos na conferência de Copenhague em dezembro do ano passado, estaremos a caminho de 3º ou 4º Celsius de aquecimento mundial. Isso provavelmente ultrapassará a capacidade de adaptação de muitas sociedades e ecossistemas. E se nada for feito, o planeta poderá até mesmo aquecer entre 5º e 7º Celsius até o final deste século - e ainda mais, depois. Marchar conscientemente nesse caminho seria insano.
Devemos encarar os fatos: nossas emissões de gases estufa são, provavelmente, ao menos parcialmente culpadas por esse verão de extremos. Apegar-se à esperança de que tudo é fruto de acaso e natural parece ingênuo. Esperemos que este verão de extremos seja um grito de alerta de última hora a ser ouvido por autoridades decisórias, pelo mundo empresarial e pelos cidadãos.

ATÉ SÁBADO, O PLANETA TERÁ CONSUMIDO TODOS OS RECURSOS PARA ESTE ANO

No próximo sábado (21), os habitantes da Terra terão esgotado todos os recursos que o planeta lhes proporciona para o período de um ano, passando a viver dos créditos relativos ao próximo ano, segundo cálculos efetuados pela ONG Global Footprint Network (GFN).
De acordo com o estudo, "foram necessários 9 meses para esgotar o total do período", em termos ecológicos.
A GFN calcula periodicamente o dia em que vão se esgotar os recursos naturais que o planeta é capaz de fornecer pelo período de um ano, consumidos pela humanidade, aí incluídos o fornecimento de água doce e matérias-primas, entre elas as alimentares.
Para 2010, a ONG prevê o "Earth Overshoot Day" (ou Dia do Excesso, em tradução livre), no próximo sábado, significando que em menos de nove meses esgotamos o que seria o orçamento ecológico do ano, diz o presidente da GFN, Mathis Wackernagel.
No ano passado, segundo ele, o limite foi atingido no dia 25 de setembro, mas não é que o desperdício tenha sido diferente.
"Este ano revisamos os nossos próprios dados, verificando que, até então, havíamos superestimado a produtividade das florestas e pastos: exageramos a capacidade da Terra" de se regenerar e absorver nossos excessos.
Para o cálculo, a GFN baseia-se numa equação formada pelo fornecimento de serviços e de recursos pela natureza e os compara ao consumo humano, aos dejetos e aos resíduos --as emissões poluentes, como o CO².
"Em 1980, a nossa "pegada ecológica" foi equivalente aos recursos disponíveis da Terra. Hoje, é de 50 % a mais, explica a ONG.

ORÇAMENTO
Assim, "se você gasta seu orçamento anual em nove meses, deve ficar provavelmente muito preocupado: a situação não é menos grave quando se trata de nosso orçamento ecológico", explica Wackernagel.
"A mudança climática, a perda da biodiversidade, o desmatamento, a falta de água e de alimentos são sinais de que não podemos mais continuar a consumir o nosso crédito", completa.
Para inverter a tendência, é preciso "que a população mundial comece a diminuir" --um tabu que começa a ser desmistificado pouco a pouco entre os demógrafos e os defensores do meio ambiente, inclusive no seio das Nações Unidas.
"As pessoas pensam que seria terrível mas, para nós, representaria uma vantagem econômica. É uma escolha", comenta Wackernagel.

domingo, 15 de agosto de 2010

VIGILÂNCIA NAS FRONTEIRAS: SAÍDA PARA CONTER FLUXO IMIGRATÓRIO ?

O governo Obama destina 600 milhões de dólares contra os clandestinos mexicanos. Mas os republicanos impedem contra o projetos, dedicados a regularizar quem já está no país.
A reportagem é de Federico Rampini, publicada no jornal La Repubblica, 14-08-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Mil e quinhentos policiais e militares enfileirados para o reforço na fronteira com o México. O uso, pela primeira vez, dos "drones", os mesmos aviões sem piloto usados para caçar Osama bin Laden ou telecomandar os bombardeios contra o Talibã. Seiscentos milhões de dólares de financiamentos.
São esses os meios excepcionais colocados em campo pela lei anticlandestinos que Barack Obama assinou nesta sexta-feira. O presidente tomou a medida com uma cerimônia silenciosa: a ministra do Interior, Janet Napolitano, de pé ao lado da sua mesa, só os fotógrafos oficiais permitidos, nenhuma pergunta e resposta com a imprensa. Um perfil discreto, para evitar instrumentalizações e polêmicas.
Essa lei é o mínimo denominador comum, muito tênue, entre a direita e a esquerda. O Congresso a aprovou na quinta-feira com um consenso bipartidário. Logo depois da votação, Obama divulgou esta declaração: "Assegurar a nossa fronteira meridional é uma prioridade. Eis porque a minha Administração dedicou meios sem precedentes à luta contra as grandes organizações criminosas transnacionais que traficam drogas, armas, dinheiro sujo e gerem o transporte de imigrantes clandestinos através da fronteira. Essas medidas permitem-nos continuar trabalhando com o Congresso para se chegar a uma reforma partilhada das normas sobre a imigração".
Esse é o último objetivo que, na realidade, continua muito distante. Deslocando mais tropas e tecnologias anticrime à fronteira Sul, Obama demonstra não ser um presidente "mole" na ordem pública. Não pode haver tolerância com quem não respeita a lei norte-americana.
Mas na atmosfera política atual, o presidente não se ilude de encontrar o consenso bipartidário na outra parte do seu objetivo: mudar as regras, construir um percurso de regularização, dar uma esperança de cidadania aos 11 milhões de clandestinos que já estão hoje no território dos EUA. Pelo contrário, o confronto político sobre esses temas se polarizou. Houve o passo à frente dado pelo Arizona, governada pelos republicanos, que tentou impor sozinha um endurecimento da lei contra os imigrantes. A lei do Arizona foi rejeitada por uma corte federal, mas neste domingo irão chegar ao Estado os seguidores do Tea Party para um encontro nacional que visa relançar a cruzada.
Paralelamente, a direita abriu uma outra fronte. É a campanha para revogar a 14ª emenda da Constituição: a que, desde 1868, garante a cidadania a qualquer pessoa que nasça em território norte-americano, independentemente do status dos seus pais, da sua nacionalidade e de como entraram no país.
Para os que querem revogar a emenda, esse princípio tornou-se um cavalo de Troia: alimenta o fenômeno do "turismo dos nascimento", as mães que atravessam a fronteira ilegalmente para fazer seu parto nos EUA. Quatro milhões de crianças são cidadãos norte-americanos nascidos de imigrantes clandestinos. Chamam-lhes de "crianças-âncora", porque graças a eles os pais podem esperar por uma futura regularização por meio do procedimento do reunião familiar. Quatro milhões de crianças aos quais a direita gostaria de tirar a cidadania.
Obama e o partido democrático estão convictos de que a campanha contra a 14ª emenda é um erro estratégico para os republicamos, que acabará afastando completamente da direita os votos da minoria hispânica, cujo peso demográfico continua crescendo. Mas, imediatamente, a campanha contra os clandestinos pode compactar e fortalecer o eleitorado da direita em alguns Estados fronteiriços. E se os republicanos conquistarem a maioria na Câmara em novembro, Obama poderá dar adeus à sua "verdadeira" reforma imigratória.

sábado, 14 de agosto de 2010

A ONU alerta que o mundo vive fenômenos meteorológicos extremos ‘sem precedentes’

A Organização Mundial de Meteorologia (OMM) garante que o planeta sofre uma série de fenômenos meteorológicos extremos “sem precedentes”. Em um comunicado, cita a onda de calor e os incêndios na Rússia, as inundações em enormes extensões na Ásia e partes da Europa central, a seca na África subsaariana e os deslizamentos de terra na China. O organismo da ONU avisa que ainda é cedo para atribuir um fenômeno concreto à mudança climática, mas assinala que “a sucessão de fenômenos atuais concorda com as projeções do IPCC sobre fenômenos meteorológicos maiores e mais frequentes”.

A reportagem é de R. M. e está publicada no jornal El País, 13-08-2010. A tradução é do Cepat.

Apesar das nevascas ocorridas em janeiro em zonas povoadas dos Estados Unidos, o primeiro semestre do ano foi o mais quente dos últimos 131 anos. A OMM cita o serviço meteorológico russo ao afirmar que este julho em Moscou foi o mais quente dos últimos 130 anos, quando começaram os registros. A temperatura foi 7,8 ºC superior ao que seria a normal, quando em 1938 esteve 5,3 graus acima. Em 29 de julho, Moscou registrou 38,2 ºC, quando a média máxima nesta época é de 23 ºC.
O calor disparou uma onda de incêndios, muitos deles impossíveis de serem controlados, porque acontecem nas turfeiras, material vegetal acumulado no subsolo ao longo de milhares de anos. Essa é a explicação de Guillermo Rein, especialista em fogos subterrâneos: “Para apagar um metro quadrado de turfeira necessita-se de uma tonelada de água, assim que somente é possível controlar aqueles focos nos quais a chama é visível. E Moscou está no meio”. Rein afirma que enquanto a chuva não cobrir todo o território não será possível apagar o incêndio das turfeiras.
O Ártico, o lugar do planeta onde mais se nota o aumento de temperatura, esteve em julho muito próximo da extensão mínima de gelo, registrada em 2007. Nesse ano bateu todos os registros de retirada de gelo e, mesmo que nos dois anos seguintes não tenha voltado ao mínimo, no final de agosto pode bater outro recorde (sobre a extensão que desde 1979 é medida pelos satélites). A partir desse momento a água marinha voltará a se congelar e a camada de gelo ganhará terreno.
A Groenlândia viu este mês o desprendimento de um de seus glaciares: uma ilha de gelo com uma superfície equivalente a duas vezes e meia a cidade de Barcelona. É o maior fenômeno deste tipo desde 1962.
Os gases de efeito estufa, principalmente CO2 produto da queima de combustíveis fósseis, se acumulam na atmosfera e retêm parte do calor emitido pela Terra. Esses gases vêm se acumulando desde o começo da revolução industrial e seu nível na atmosfera supera o dos últimos 650.000 anos.

O MUNDO RECLAMA, A NATUREZA GRITA, E OS HOMENS?! SÓ FICAM ASSUSTADOS E FERIDOS....

O MUNDO CLAMA, O PLANETA NÃO AGUENTA MAIS TANTA AGRESSÃO...
E A NATUREZA REAGE, GRITA, E OS HOMENS, AHHH, OS HOMENS, SÓ SOFREM AS CONSEQUÊNCIAS....
A IMAGEM ABAIXO, DO PAQUISTÃO EM SUA ÚLTIMA ENCHENTE...
QUEIMADAS NA RÚSSIA... O PERIGO MORA AO LADO...
PEGA FOGO... E PRÓXIMO DAS ÁRVORES CONTAMINADAS PELO ACIDENTE DE CHERNOBYL...
NO BRASIL, A SECA ATINGE VÁRIOS PONTOS DO PAÍS, E EM OUTRAS REGIÕES, O FRIO ASSUSTA...
NO CONTINENTE EUROPEU, AS CHEIAS, AS ENCHENTES DEIXAM MILHARES SEM CASA... É O CAOS DO CLIMA....
E A PERGUNTA QUE NÃO QUER SE CALAR...O QUE ESTÁ ACONTECENDO COM O CLIMA ?

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O MUNDO SENTE OS EFEITOS DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS....

A onda de calor sem precedentes que assola a Rússia diminui a produção de grãos, o que pode aumentar o preço dos alimentos, afirma o especialista Lester Brown. Uma turbina eólica no Estado de Iowa pode produzir eletricidade limpa. Mas o governo dos Estados Unidos destina milhares de milhões de dólares para subsidiar a produção de etanol, com mínimas consequências sobre o aquecimento global, disse Lester, fundador do Instituto da Terra, com sede em Washington.

A reportagem é de Stephen Leahy, da IPS, e publicada pela Agência Envolverde, 12-08-2010.
“O mais inteligente que os Estados Unidos podem fazer é eliminar aos poucos os subsídios do etanol”, acrescentou Lester, referindo-se à alta do preço de alguns alimentos devido à onda de calor sem precedentes que assola o oeste da Rússia, que dizimou cultivos e aumentou a quantidade de mortos por dia. “Costumamos ter entre 360 e 380 mortes por dia nesta época. Agora são 700. A mortalidade duplicou”, disse à agência russa Ria-Novosti o chefe do departamento de Saúde da prefeitura de Moscou, Andreï Seltsovski.
“A lição que temos de aprender diz que deve ser levada mais a sério a mudança climática, e realizada uma rápida redução das emissões de gases-estufa, antes que a situação fuja ao controle”, alertou Lester à IPS. Em julho, a temperatura média em Moscou esteve oito graus acima do normal, e “esse tipo de aumento durante todo um mês é algo inédito”, acrescentou.
Foram registrados 37 graus na capital russa no dia 9. A temperatura média normal de agosto é de 21 graus. Foram 28 dias seguidos de temperaturas superiores a 30 graus. A umidade da terra caiu a níveis só observados uma vez a cada 500 anos, afirmou Lester. A previsão é que a produção de trigo e outros grãos caia 40%, ou mais, na Rússia, no Cazaquistão e na Ucrânia. A região produz 25% das exportações mundiais de trigo.
O primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, anunciou que o país proibirá as exportações de grãos. O preço dos alimentos aumentará, mas ainda não se sabe quanto, previu Lester. “Só sabemos que o trigo, o milho e a soja já estavam mais caros no começo deste mês do que em agosto de 2007, antes do recorde do preço dos grãos”, acrescentou.
Os gases-estufa liberados na atmosfera pela queima de combustíveis fósseis concentram a energia solar na atmosfera. Especialistas climáticos prevêem que seja mantido o aumento na quantidade e intensidade das ondas de calor e que ocorram mais secas. O calor e os incêndios custaram a vida de centenas de pessoas no ano passado, na pior seca que aconteceu na Austrália em mais de um século, que também prejudicou o setor agrícola. Na Europa ocorreu algo similar em 2003, quando morreram 53 mil pessoas, mas os cultivos não foram tão afetados.
Se a onda de calor que assola a Rússia tivesse atingido regiões produtoras de grãos como aquelas onde ficam Chicago e Pequim, as consequências teriam sido muito piores, porque a produção de cada uma delas é cinco vezes maior do que a russa, disse Lester. As perdas chegaram a entre 100 e 200 toneladas de grãos, com consequências inimagináveis para o fornecimento de alimentos. “O que acontece na Rússia é chama atenção para a vulnerabilidade do fornecimento de alimentos”, ressaltou.
O clima da Terra está esquentando e a maioria dos cultivos é sensível ao calor e à falta de água. A produção de arroz caiu de 10% a 20% nos últimos 25 anos na Tailândia, Índia, China e Vietnã, devido ao aquecimento global, segundo nova pesquisa da norte-americana Universidade da Califórnia. Dados coletados em 227 fazendas bem irrigadas mostram uma importante redução na produção devido às altas temperaturas registradas durante a noite, segundo os pesquisadores.
“Quanto mais quentes são as noites, mais diminui a produção de arroz”, disseram Jarrod Welch, da Universidade da Califórnia, em San Diego, e seus colegas do Proceedings of the National Academy of Sciences. Estudos anteriores chegaram a conclusões similares em terrenos experimentais, mas esta é a primeira vez que ocorre em condições reais e em grande escala.
Com tanta pressão sobre o fornecimento de alimentos, simplesmente é um erro utilizar 25% da produção de grãos para produzir etanol e usar como combustível de automóveis, insistiu Lester. “É preciso eliminar gradativamente os subsídios ao etanol e reduzir de fato as emissões contaminantes de forma urgente”, acrescentou.

Para ler mais:
O possível vínculo entre as enchentes no Paquistão e na China e a onda de calor, a seca e os incêndios florestais na Rússia tornou-se ontem fonte de debate entre especialistas dos maiores centros de pesquisa meteorológica da Europa. Enquanto autoridades contam os mortos nos três países, os cientistas se dividem sobre as explicações dos fenômenos, que teriam relação com uma mesma corrente de ar em alta altitude.

A reportagem é de Andrei Netto e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 12-08-2010.

Para alguns dos institutos de meteorologia mais importantes da Europa, como o British Met Office e o Météo France, os fenômenos estão interligados. A explicação para a intempérie no Paquistão seria o chamado "jet-stream", corrente de ar que circula em altas altitudes - entre 6 e 15 quilômetros da superfície -, a uma velocidade média de 100 km/h. Com a onda de calor, um "jet-stream" teria se formado a partir da Rússia. Sobre o Paquistão, a corrente teria se chocado com uma monção de intensidade anormal vinda do sul.
"É claro que há vínculo entre os fenômenos", assegurou Etienne Kapikian, perito do Météo France. Entre cientistas que estudam mudanças climáticas, há cautela em relação à influência do aquecimento global nas tragédias. Hervé Le Treut, diretor do Instituto Pierre Simon Laplace, adverte que uma das evidências do aquecimento global é a maior frequência de eventos extremos. Já Pascal Scaniver, chefe do Serviço Previsão da consultoria Chaîne Météo, da França, vê fenômenos independentes nas chuvas da China e do Paquistão e na onda de calor na Rússia.
As monções - chuvas torrenciais típicas do Sudeste Asiático - teriam provocado a morte de 1,2 mil paquistaneses e desabrigado 1,8 milhão de habitantes. Em Zhouqu, no centro da China, mais de 1,1 mil corpos já foram retirados da lama que deslizou em razão da precipitação.
Vivendo o fenômeno inverso, a Rússia enfrenta há 15 dias aquelas que seriam suas maiores temperaturas em mil anos. Mais de 500 incêndios se espalharam pelo país, com um saldo de mortos desconhecido, embora o Kremlin reconheça apenas 52 vítimas. Em Moscou, a média de mortes aumentou de 380 para 700 durante a onda de calor.
A ONU tem o desafio de auxiliar as vítimas no Paquistão e apelou ontem às doações internacionais para obter US$ 459 milhões para auxiliar, durante três meses, os 14 milhões de afetados pela chuva no país.

PAIS E FILHOS, NA NOVA EVOLUÇÃO DA INTERNET....

Lugar de computador, em casa, é na sala ou no corredor, jamais em quartos isolados ou fechados", escreve Alexandre Hohagen, jornalista e publicitário, fundador da operação do Google no Brasil em 2005 e, desde 2009, presidente da empresa na América Latina, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, 12-08-2010.

Eis o artigo.
"Pai, o e-mail tá tipo... morto! Te mando por SMS."
Essa foi a resposta da minha filha quando pedi que enviasse uma informação para meu correio eletrônico. Pareceu exagerada a afirmação. Mas tente se comunicar com um adolescente por e-mail. A chance de um "reply" nunca chegar é grande. A razão é simples: as novas gerações, que nascem e crescem cercadas de tecnologia, estão mudando a forma como encaram alguns dos preceitos mais básicos da comunicação e da sociabilidade.
Como pai "tecnológico", tenho observado com crescente interesse essa evolução. Não basta conhecer as melhores tecnologias. É preciso estar próximo e entender o que está mudando na cabeça dessa moçada. Para chegar mais perto deles, comprei e aprendi a pilotar uma mesa de DJ e recebo grupos de amigos de minha filha para reuniões em casa. É como um Orkut ao vivo.
Com essa convivência próxima, constatei que há algumas mudanças nessa geração que não controlamos, fazem parte de um novo mundo. Primeira: os jovens se comunicam por meio de mensagens cada vez mais curtas. Segunda: esse mesmo jovem se acostumou com informações instantâneas.
Para eles, não faz mais sentido visitar a biblioteca para encontrar respostas às suas dúvidas. E, finalmente, os jovens estão obcecados por compartilhar com o maior número possível de pessoas tudo o que fazem.
Era preciso me adaptar. Com minha filha adolescente, mensagens de texto pelo celular e em rede social geralmente funcionam melhor que o e-mail. Já a filha mais nova, em fase de alfabetização, não aceita mais "eu não sei" como resposta.
Para ela, celular ou computador têm a capacidade de responder na hora o que ela quer saber. Outro dia ela perguntou para minha esposa quantos países existem no mundo.
E, diante da resposta negativa, disse: "Mas você tem o Google no seu celular!". Achado e respondido.
O desafio, no entanto, vai muito além de compartilhar informação.
Essa galera está ampliando cada vez mais sua capacidade de relacionamento. E com isso o desejo de dividir com mais e mais pessoas aquilo que fazem, aquilo de que gostam.
Muitas vezes, saber quem é quem no meio de centenas de "amigos virtuais" não é tarefa fácil.
Na minha época, ser popular era lotar uma festinha com as crianças da escola. Hoje, popular é aquele com maior número de seguidores no Twitter ou de amigos no Orkut.
Nesse desejo de multiplicar suas conexões reside um risco e cabe a nós mitigá-lo. Recentemente, um casal adolescente no Sul do país se prestou a uma exibição pouco ortodoxa para simplesmente aumentar o número de seguidores em seus perfis do Twitter. Quanto mais gente conectava, mais ousados ficavam. Acabaram com quase 10 mil seguidores on-line e um papo nada agradável na delegacia.
Ser pai em dias modernos representa desafio grande. Demanda dedicação e equilíbrio entre liberdade e modernidade. Há alguns anos, tomei decisões simples que me ajudam a manter esse equilíbrio. Por exemplo: durante muito tempo, só aceitei que minha filha mais velha acessasse rede social com senha compartilhada. Tentei ensiná-la o básico: não aceite amigos que não conheça, cuidado com o que dizem na internet, nada de compartilhar informações pessoais.
Outra medida simples e eficaz: em casa, lugar de computador é na sala ou no corredor. Jamais em quartos isolados ou fechados. Agora, mais do que qualquer medida, a proximidade, a conversa e o entendimento do que está mudando nos hábitos das novas gerações é o que mais ajuda no desafio de educar nos tempos modernos. E de entender o que a juventude espera de nossas empresas, como profissionais e como consumidores.
A internet permite acelerar o desenvolvimento infantil em muitos sentidos e é um meio essencial para a evolução da sociedade. Como no mundo físico, a inserção dos nossos filhos nessa nova realidade deve acontecer passo a passo e com supervisão. Mesmo que seu pai conheça tudo sobre internet e tecnologia!

UM DIA DEPOIS QUE A CHINA E OS EUA, ATORMENTARAM AS BOLSAS NO MUNDO INTEIRO....

ESSA TAL DE CRISE NOS EUA AINDA VAI DAR NO QUE FALAR... AGORA MAIS AINDA, QUANDO A CHINA, QUE JÁ ENCOSTOU SUA ECONOMIA NA AMERICANA, NOS FAZ TEMER O PIOR... ISSO... SE TUDO DER CERTO, OU SERÁ QUE VAI DAR ERRADO ????
Economistas do mercado de capitais têm dúvidas sobre o risco de o mundo cair em uma nova fase da crise.

A reportagem é de Toni Sciarretta e Mariana Schreiber e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 12-08-2010.

As dúvidas agora dizem respeito à capacidade de recuperação dos EUA, à falta de fôlego da maioria dos países em implementar mais medidas de ajuda e às dificuldades para a China manter um ritmo vigoroso de avanço, que alimenta a alta de países como o Brasil.
O diretor do Centro de Economia Mundial da FGV, Carlos Langoni, não vê risco de uma nova recessão mundial ou nos países desenvolvidos. Ele observa que praticamente todos os países industrializados estão crescendo, embora em patamares baixos.
"Toda saída de uma recessão é tortuosa. A recuperação está mais lenta do que o esperado, mas não acredito num duplo mergulho", disse.
O economista-chefe do Banco Schahin, Silvio Campos Neto, considera que uma nova recessão não é o cenário mais provável. No entanto, esse temor cresceu após a divulgação de indicadores fracos de produção industrial e de vendas do varejo.
"A desaceleração da economia chinesa já era esperada devido às medidas anti-inflacionárias. Num contexto de deterioração da recuperação dos países desenvolvidos, faz aumentar a preocupação com nova recessão."
Na avaliação do Santander, a derrocada ontem se deve ao tom do comunicado do Fed [BC dos EUA], mais pessimista do que o anterior. "O Fed evitará contrair os recursos já injetados na economia, o que não significa colocação de mais dinheiro", afirmou.
No Brasil, o pessimismo foi atenuado ontem pelas perspectivas de forte crescimento da economia, especialmente do consumo interno.
"O crescimento brasileiro deste ano está garantido. Em 2011, deve cair para cerca de 5%, dependendo do cenário externo", disse Langoni.
Segundo Campos Neto, o mais preocupante é que muitos países não têm fôlego para novas medidas de estímulo. "Restou ao Fed recomprar títulos para injetar liquidez no mercado, mas nada garante que isso vai virar investimento e consumo."
Para Mirian Tavares, diretora da AGK Corretora, o comunicado do Fed deixou clara a necessidade de mais estímulos monetários para incentivar a atividade econômica. "Essa desaceleração é saudável e positiva, uma vez que evita a formação de bolhas e desequilíbrios", disse.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Começa o Ramadã para 1,5 bilhão de muçulmanos

Cerca de 1,5 bilhão de muçulmanos no mundo são chamados a iniciar, no começo desta semana, o mês de jejum e de orações rituais do Ramadã, que comemora a revelação divina recebida por Maomé.


A reportagem está publicada no sítio Religión Digital, 08-08-2010. A tradução é do Cepat.

O Ramadã corresponde ao nono mês do calendário da Hégira, ao qual os muçulmanos se referem para suas festas religiosas, e que se baseia no ciclo lunar. Este calendário conta com 11 dias a menos que o calendário solar.
Por esta razão, as datas do começo e do fim do Ramadã mudam todos os anos. Em 2010, o Ramadã, o ano 1.431 da história, deve começar no dia 10 ou 11 de agosto e terminará em meados de setembro.
Este mês de jejum e orações é um dos cinco pilares do Islamismo, junto com a profissão de fé, a obrigação de rezar cinco vezes ao dia, a esmola e a peregrinação a Meca. Durante esse período, os crentes devem abster-se de comer, de beber, de fumar e de manter relações sexuais, desde o amanhecer até o pôr do sol.
Para a religião muçulmana, o Ramadã é um mês de piedade, de caridade e de frugalidade. O jejum é concebido como um esforço espiritual, uma luta contra a sedução dos prazeres terrenos.
O primeiro dia é determinado pela “noite da dúvida”, durante a qual se observa o aparecimento do primeiro quarto crescente da Lua, que deve ser visível e devidamente comprovada. Em consequência, teólogos, sábios e religiosos se reúnem todos os anos para fixar a hora precisa, variável segundo os lugares do globo.
O respeito do jejum é imposto a todos os crentes que chegaram à idade da puberdade. As famílias, contudo, vão progressivamente acostumando as crianças a jejuar.
As mulheres grávidas ou que estão amamentando, os enfermos e os viajantes estão autorizados a não jejuar, mas têm o dever de se submeter a isso assim que estejam em condições de fazê-lo.
Jantares festivos reúnem tradicionalmente as famílias para celebrar o fim do jejum. Os alimentos do fim do Ramadã, o Aid El Fitr, são igualmente uma festa.
O fato de que o Ramadã coincida este ano com as férias de verão inquieta a indústria turística da região, preocupada com o fato de que os ricos visitantes árabes procedentes da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes Unidos, Kuwait ou Líbia, preferem ficar em suas casas para passar as festas tradicionais em família.
“Os turistas árabes são muito importantes para o Egito”, destaca Samy Mahmud, do ministério de Turismo do Cairo, porque “gastam em média muito mais que os outros e suas permanências são muito mais longas”.
Por esse motivo, o Egito lançou uma campanha denominada “Festival do Fanus” – farol tradicional egípcio que se acende durante o Ramadã – destinada a convencer os turistas a que, uma vez passado o momento mais austero do jejum, possam desfrutar das animadas noites egípcias com fogos de artifício, espetáculos, concertos e danças folclóricas às margens do Nilo.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

''A reprimarização é o subdesenvolvimento'', afirma economista

"Há nítido processo de rereprimarização da economia brasileira com o avanço da agropecuária e da mineração em detrimento da indústria de transformação. Portanto, é mais apropriado falar em rereprimarização que em desindustrialização, visto que o maior avanço relativo é o da indústria extrativa mineral", constata Reinaldo Gonçalves, professor de Economia Internacional na Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, em entrevista concedida à revista IHU On-Line desta semana.
Segundo ele, "é difícil dizer o que é pior: empresas públicas usadas com objetivos políticos menores e, portanto, ineficientes, ou empresas privadas que gerenciam monopólios/oligopólios sem o aparato regulador eficaz. A existência de grandes empresas nacionais com poder econômico e, portanto, poder político também é um grave problema. A política de “campeões nacionais” implica centralização do capital e enfraquece a democracia, visto que os grandes grupos econômicos tornam-se, cada vez mais, os principais jogadores no financiamento de campanha. A questão central está no equilíbrio entre grandes e pequenas empresas operando sob esquemas regulatórios eficazes de controle de práticas de negócios restritivas (abuso do poder econômico)".
Para Reinaldo Gonçalves, "os investimentos de longo prazo estão focados em setores intensivos em recursos naturais. A rereprimarização é o subdesenvolvimento. Pré-sal, etanol, soja, carne bovina, frango etc. É o Brasil andando para trás. Não se iludam com os dados deste ano eleitoral. Este crescimento tem dependido de forte endividamento das famílias, empresas e governo. Isto não se sustenta por muito tempo. O Brasil pode estar entrando na mesma trajetória da Grécia no início dos anos 2000. O resultado será mais um longo período de instabilidade e crise".

domingo, 8 de agosto de 2010

A CHINA TAMBÉM CAUSA REVIRAVOLTA POR AQUÍ....


"No ano passado, a China se tornou pela primeira vez o maior mercado do Brasil, superando os EUA, que ocupavam essa posição há quase 150 anos. O mercado chinês foi também o primeiro destino das vendas do Mercosul e do Chile, o segundo para a Argentina e o Peru", escreve Rubens Ricupero, ex-secretário-geral da Unctad, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, 08-08-2010.
Segundo ele, "nunca tivemos a experiência de comércio exterior dissociado de fortes vínculos culturais e políticos. O desafio de definir uma política para a China passa por integração comercial menos assimétrica e pelo enriquecimento em conteúdo de uma relação que não deve ser reduzida à dimensão mercantil".

Eis o artigo.

No ano passado, a China se tornou pela primeira vez o maior mercado do Brasil, superando os EUA, que ocupavam essa posição há quase 150 anos. O mercado chinês foi também o primeiro destino das vendas do Mercosul e do Chile, o segundo para a Argentina e o Peru.
Isso não se deve somente aos efeitos da crise financeira sobre a demanda dos EUA. A tendência é clara em toda a primeira década do século. Durante esses dez anos, o comércio China-América Latina foi o de maior crescimento em cotejo com outras regiões nas exportações e nas importações, aumentando ao dobro da taxa média mundial.
É melancólico como o intercâmbio brasileiro-americano perdeu importância relativa nos últimos cem anos. Em 1905/06, o Brasil era o sexto maior parceiro bilateral dos EUA, após o Reino Unido, a Alemanha, a França, o Canadá e Cuba (açúcar). Chegamos a ser os terceiros fornecedores dos ianques nos tempos em que nem se sonhava com Japão, China, Coreia e outros asiáticos.
Já em 1870 os americanos nos compravam quatro vezes mais do que nos vendiam. O saldo acumulado pelo Brasil com os EUA cresceu de 1867 a 1905 a ponto de atingir cifras astronômicas se corrigidas com os valores de hoje. Em 1912, ano da morte do barão do Rio Branco, os EUA absorviam 36% das vendas brasileiras, ao passo que o segundo, o Reino Unido, recebia só 15%.
Embora não se possa falar em causa e efeito, o fato é que o apogeu da aproximação política Brasil-EUA, a fase da chamada "aliança não-escrita", coincidiu com o ápice das relações econômico-comerciais. Desde aquela época, a porcentagem das vendas aos EUA em comparação com o resto do mundo foi caindo, primeiro para oscilar entre 20% e 24%, mais recentemente para algo em torno de 17/18%, desconsiderando 2009, quando desabou a 10%.
Os EUA têm sido, ao lado da América Latina, os únicos grandes mercados para exportações brasileiras de alta tecnologia, sendo os maiores compradores da Embraer, por exemplo. As transnacionais americanas no Brasil direcionaram em geral maior parcela da produção local ao mercado da matriz do que transnacionais de outras origens.
Em contraste, o mercado chinês só compra commodities do Brasil e outros latinos, reservando aos vizinhos asiáticos o papel de supridores de insumos industriais de alto valor agregado. Criou-se situação duplamente preocupante devido à dependência excessiva do mercado chinês e ao caráter assimétrico da troca de commodities por manufaturas cada vez mais sofisticadas.
No passado, os principais parceiros comerciais ou financeiros do Brasil eram os EUA, o Reino Unido, os europeus, países da mesma tradição histórico-cultural. O intercâmbio não se limitava a mercadorias: valores e aspirações em democracia e direitos humanos vinham das revoluções francesa e americana, do parlamentarismo inglês.
Nunca tivemos a experiência de comércio exterior dissociado de fortes vínculos culturais e políticos. O desafio de definir uma política para a China passa por integração comercial menos assimétrica e pelo enriquecimento em conteúdo de uma relação que não deve ser reduzida à dimensão mercantil.

sábado, 7 de agosto de 2010

Crise econômica mundial reduz corte de madeira

PELO MENOS UMA BOA, OU QUASE BOA NOTÍCIA NESTE MUNDO DE CRISE AMBIENTAL....
A crise econômica freou o corte de madeira no mundo. Com a queda sem precedentes do número de construções, de crédito e do consumo de energia, a ONU estima que o uso de madeira e papel tenha caído 11,6% em 2009 - a maior redução em 40 anos.
A reportagem é de Jamil Chade e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 06-08-2010.

Pela primeira vez em 20 anos, o corte de árvores no Hemisfério Norte para atender ao setor industrial ficou abaixo de 1 bilhão de metros cúbicos. No total, 300 milhões de metros cúbicos a menos de madeira foram usados em 2009 em comparação a 2007. Nos países do Leste Europeu, Rússia, Estados Unidos e Canadá, a queda foi de 14%.
Segundo a ONU, a crise nos países ricos e o real valorizado fizeram com que o Brasil perdesse espaço nos mercados estrangeiros para a madeira asiática. A produção nacional passou a atender principalmente o mercado interno, em plena expansão do setor de construção.
A ONU alerta que o uso da madeira para construção e energia não é o principal motivo do desmate das florestas pelo mundo. Queimadas para transformar um terreno em terra arável, mineração e outras atividades são fatores que têm impacto ainda maior. Mesmo assim, o que se comprovou foi uma queda acentuada na produção pelo mundo.

Certificação
A crise também desacelerou o ritmo de certificação de florestas. Hoje, 355 milhões de hectares de florestas estão certificados, 8% a mais que em 2009. Com a recessão, os investimentos de empresas para certificar sua produção e o apoio de governos caíram.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Acordo histórico. ONU e Equador criam fundo para proteger a Amazônia contra exploração de petróleo

Numa iniciativa que já está sendo chamada de histórica, as Nações Unidas e o governo equatoriano fecharam um tratado pelo qual o país receberá US$ 3,6 bilhões em troca de deixar intacta uma área de proteção ambiental na Amazônia.
O Parque Yasuní foi declarado pela Unesco Reserva Mundial da Biosfera em 1989. 

A reportagem é do sítio Globo Amazônia, 04-08-2010.

O Equador definiu nesta terça-feira, a criação de um fundo administrado pela Organização das Nações Unidas (ONU) para receber doações que compensem o país por uma futura suspensão da exploração de seu maior campo petrolífero, situado no coração da selva amazônica, para proteger os recursos naturais.
O fundo será administrado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), mas o Equador decidirá em quais projetos serão investidos os recursos doados. A previsão é de que nos primeiros 18 meses o valor chegue a US$ 100 milhões (cerca de R$ 174,8 milhões).
O governo equatoriano está disposto a renunciar a cerca de 850 milhões de barris de petróleo do campo de Ihspingo-Tambococha-Tiputini (ITT), a "joia da coroa" do petróleo do país, mas em troca espera a compensação de pelo menos metade dos US$ 7 bilhões (cerca de R$ 12,2 bilhões) que deixaria de receber.
O ITT fica no centro do Parque Nacional Yasuní, uma das reservas com maior biodiversidade do planeta, com cerca de 982 mil hectares. "A assinatura do instrumento financeiro é parte desse esforço permanente para nos aproximarmos da utopia de ter um planeta que respeite os direitos dos seres vivos", disse a ministra do Patrimônio, María Fernanda Espinosa, durante a cerimônia. "A iniciativa Yasuní-ITT faz do Equador um país líder da conservação da biodiversidade, mitigação das mudanças climáticas e desenvolvimento social com justiça ambiental em nível mundial", acrescentou.
O campo ITT representa 20% das reservas petrolíferas do país, menor integrante da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep).Os recursos arrecadados serão destinados ao desenvolvimento de energias alternativas. As autoridades garantiram que o país recebeu o apoio formal de Alemanha, Bélgica, União Europeia, Itália e Espanha. A Alemanha se comprometeu a entregar 50 milhões de euros (cerca de R$ 115,1 milhões) por ano.
Nas próximas semanas, representantes do governo equatoriano viajam por vários países, incluindo nações árabes, para obter aportes individuais e de empresas privadas. O argumento do Equador para promover esse fundo é de que, ao deixar de explorar o campo ITT, o país evitará a emissão de 407 milhões de toneladas de carbono na atmosfera, quantidade equivalente às emissões de países como Brasil e França em um ano.
Em troca dos recursos, serão emitidos certificados de garantia em favor dos doadores, o que permitirá que os recursos lhe sejam devolvidos no caso de o Equador decidir explorar o campo. Se num determinado período o país não conseguir arrecadar os recursos, poderá explorar o ITT.
O Parque Yasuní foi declarado pela Unesco Reserva Mundial da Biosfera em 1989. Segundo estudos científicos, em apenas um hectare o parque abriga cerca de 655 espécies de árvores e arbustos, cerca de 590 espécies de aves e 80 tipos de morcegos, entre outras classes de flora e fauna.

Duopólio de TAM e Gol em um país grande como o Brasil é inacreditável

O CAOS AÉREO NO BRASIL, OU O APAGÃO AÉREO PREOCUPA MUITOS BRASILEIEROS...
VIVEMOS UMA CRISE QUE PRECISA URGENTEMENTE DE SAÍDAS CONSTRUTIVAS....

O atual caos aéreo pode até ser localizado e particular, mas é uma nova história de uma crise anunciada que, obviamente, iria despencar (espera-se que não literalmente) na cabeça e na paciência dos mais fracos.

A reportagem é de Eliane Cantanhêde e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 05-08-2010.
As companhias aumentam seus passageiros, seus destinos e, portanto, seus lucros, mas... não aumentam o número de tripulantes. Típica operação aritmética que não fecha. E que certamente tem resultados dramáticos.
Quem acaba pagando a conta, em todos os seus sentidos e não apenas o financeiro, são os empregados e os usuários. Isso vale para qualquer atividade econômica, mas principalmente para a aviação.
Se você atrasa ou quer mudar a passagem, tem de pagar uma fortuna - em geral, R$ 50 de multa, mais a diferença da tarifa, o que muitas vezes soma o equivalente ao preço original, como se você jogasse uma fora para comprar a outra. E se a companhia é que atrasa uma, duas horas? Ela não paga nada, e você é que fica no prejuízo.
Esse desleixo com o direito do cidadão tem uma realimentação assegurada pela lentidão da Justiça e pelo decantado excesso da burocracia brasileira.
Se não acontece nada e, principalmente, se não dói no bolso, para que mudar? Vai-se tocando, ajeita-se agora e é só esperar pela nova crise, que fatalmente virá. E virá nas asas de uma palavra que resume tudo: duopólio.
No quinto maior país do mundo, é inacreditável que só haja duas companhias de grande porte, a Gol e a TAM.
Ia dar no que deu, mesmo com a Azul, a Webjet e a Avianca (ex-Ocean Air) esgueirando-se no mercado.
As medidas debatidas e anunciadas para aliviar a pressão não deram em nada. Para citar uma: onde foi parar a ampliação do capital estrangeiro nas companhias aéreas brasileiras, restrito até hoje a 20%? Todo mundo se diz a favor, mas nunca passa.