sábado, 15 de novembro de 2008

CÚPULA DO G 20 - DESTINO DA ECONOMIA GLOBAL

Como esta reunião do G20, vai decidir o futuro da economia mundial, insisto em coletar comentários sobre o tema, feitos por especialistas.
Para combater a crise mundial, líderes reunidos na cúpula do G-20 devem propor hoje maior coordenação entre os órgãos reguladores de cada país, uniformização de regras contábeis, supervisão de fundos hedge e de agências de classificação de risco, regras para remuneração de executivos e maior poder para o Fundo Monetário Internacional (FMI).
A reportagem é do jornal O Estado de S. Paulo, 15-11-2008.
“Mesmo sem a presença do presidente eleito Barack Obama, os líderes devem conseguir ao menos chegar aos pontos básicos de um plano de resgate da economia mundial”, diz uma fonte que acompanha as negociações. Diplomatas e economistas passaram o dia costurando os últimos ajustes para o comunicado do G-20. Tudo indicava que haveria consenso em relação à criação de um colegiado para supervisionar os 30 maiores bancos transnacionais (incluindo o Itaú-Unibanco e o Bradesco), idéia lançada pelo primeiro-ministro britânico Gordon Brown.
O novo órgão de supervisão reuniria reguladores de vários países para supervisionar e monitorar os riscos assumidos por 30 grandes bancos que atuam em vários países.
O órgão proposto ficaria bem longe da “Interpol financeira” desejada pelos franceses. John Williamson, economista do Instituto Peterson de Economia Internacional, acha que o colegiado é um meio-termo entre as posições mais extremas. A França queria um órgão com poderes sobre as regulamentações de cada país, enquanto os EUA se opunham a qualquer agência transnacional de regulação. “Se realmente incluírem o colegiado no comunicado, será muito positivo, um resultado mais concreto do que esperávamos.”
Porém, o FMI resiste à proposta. Ontem, em comunicado conjunto com o Fundo de Estabilidade Financeira (FEF), afirmou que é sua “a responsabilidade pela vigilância do sistema financeiro internacional”, sendo tarefa do FEF “a elaboração dos padrões e das políticas regulatórias e de supervisão”.
Para Mauricio Cárdenas, pesquisador-sênior do Brookings Institution, esse novo órgão será muito diferente da agência supranacional de regulamentação do sistema financeiro defendida por alguns países. “Acho que será mais uma comissão que analisará os problemas das instituições. Bush nem tem poder para abrir mão de mais soberania regulatória dos EUA a essa altura do campeonato.”
Como medida de curto prazo, os líderes devem propor uma coordenação para a elaboração de pacotes de estímulo fiscal. Várias nações, entre elas China, Alemanha e Japão, anunciaram pacotes recentemente. A Grã-Bretanha vai divulgar o seu na semana que vem. E nos EUA os democratas querem mais um, com investimentos em infra-estrutura e talvez nas montadoras, antes da posse de Obama. Mas o governo Bush resiste.


Crise abre espaço para emergentes

A cúpula financeira que acontece hoje em Washington, no âmbito do G-20, é o primeiro passo para a integração dos países emergentes na nova ordem mundial. Existe hoje um consenso de que as nações em desenvolvimento precisam ter mais influência nas decisões globais, de forma a fazer valer o poder econômico que ganharam nos últimos anos.


A reportagem é de Daniela Milanese e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 15-11-2008.


Especialistas acreditam que a inserção dos emergentes, como o Brasil, se dará pela nova configuração das instituições financeiras. Esse seria o caminho mais rápido e eficiente, pois a crise deve provocar a remodelação de organismos como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, criados na Conferência de Bretton Woods, em julho de 1944.
“A crise nos países desenvolvidos aumenta o apelo para que os emergentes tenham mais presença nas decisões, até porque a Ásia e o Oriente Médio são vistos como parte da solução pelo tamanho de suas economias', afirma o professor da London School of Economics, Francisco Panizza.
Para ele, a cúpula financeira no âmbito do G-20, grupo que reúne os países mais ricos e os maiores emergentes, “é um primeiro passo na direção certa”. “No longo prazo, é inevitável que essas nações tenham mais poder, o que estará refletido na reformulação das organizações internacionais.” O tema esteve presente na reunião preparatória promovida pelo Fórum Econômico Mundial, no último final de semana, em Dubai. “A eleição de Barack Obama e o próximo encontro do G-20 oferecem novas oportunidades para as lideranças na reformulação da arquitetura financeira internacional”, concluiu a entidade. “As maiores economias emergentes devem ter mais voz nas discussões sobre a reforma do sistema financeiro.” Nesta semana, Gideon Rachman, colunista do jornal Financial Times, escreveu que a cúpula de Washington é um reconhecimento das mudanças no poder global. “Um sistema internacional que não acomode a China, Índia e outros emergentes claramente não pode funcionar no longo prazo.” O prefeito da City de Londres, Alderman David Lewis, afirmou recentemente que é o G-20, e não o G-7, que representa as principais economias do mundo atualmente.
O presidente da Inter-American Dialogue, Peter Hakim, avalia que a entrada das novas lideranças deve ocorrer pelas instituições financeiras. “É a forma mais rápida, pois uma reforma do Conselho de Segurança da ONU, por exemplo, seria bem mais difícil e complicada.” Panizza, professor da LSE, concorda. Para ele, mudanças no Conselho de Segurança - uma das grandes demandas do Brasil na esfera internacional - não seriam vistas como prioridade pelos Estados Unidos e pela União Européia, hoje envolvidos na combate à crise financeira e à recessão econômica. A ONU é outra instituição muito desgastada, principalmente depois que os Estados Unidos decidiram invadir o Iraque sem o aval da organização.
Mas o professor alerta que a maior inserção em instituições internacionais também representa mais responsabilidade. “Não dá para ter maior atuação no FMI e não concordar com o que ele diz.” Hakim, da Inter-American Dialogue, avalia que nações como o Brasil precisam entrar de forma mais firme nesses organismos, pois já têm autoridade e capacidade para isso. “Não podemos ter sempre um americano como chefe do Banco Mundial e um europeu comandando o FMI, é preciso permitir a atuação de outros países.” Para o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que esteve nesta semana na Universidade de Oxford, o atual controle do Fundo por poucos países “não é aceitável”. 'Senti diretamente que as decisões do FMI dependem hoje do Tesouro dos Estados Unidos”, afirmou.


BRETTON WOODS
As definições da cúpula devem ficar longe de se tornar um novo Bretton Woods, na avaliação de especialistas. Analistas dizem que o encontro deve priorizar as ações de curto prazo para combater a crise. É fato que as organizações precisam de reformas diante da turbulência global, mas esse processo só será finalizado no longo prazo, após novas discussões.
“A crise atual é bastante séria e terá um impacto muito significativo no mundo, mas não se trata de uma guerra”, afirmou o Hakim. Além disso, avalia, antes de Bretton Woods as instituições internacionais - o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial - não existiam. Agora, trata-se da necessidade de reformulação das entidades criadas naquela época, um processo mais modesto.
Na avaliação de Francisco Panizza, a reunião tentará obter uma resposta coordenada no curto prazo. No caso dos emergentes, ele acredita que a principal preocupação será conseguir um compromisso dos países ricos para a obtenção de socorro financeiro, caso necessário. “Não haverá um encontro tão profundo a ponto de ser um Bretton Woods 2”, afirmou. “Uma reforma mais fundamental é um processo de cerca de dois anos e requer muito trabalho”, disse.


O que esperar do G-20?
Até que ponto os EUA estariam dispostos a aceitar uma regulação dos fluxos de capitais internacionais cujo efeito seria restringir a globalização financeira? Isto significaria limitar o poderio do dólar, lastreado na dimensão e diversificação dos seus mercados financeiros, garantido em última instancia pelo poder das armas. Seria razoável admitir que os EUA optariam por enfraquecer a sua moeda sacrificando-a ao altar da cooperação internacional?


A análise é de Ricardo Carneiro, professor Titular do Instituto de Economia e Pesquisador do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica da UNICAMP e publicada pela Agência Carta Maior, 14-11-2008.
Eis o artigo.
A reunião dos chefes de estado das vinte maiores economias do mundo, a ser realizada em Washington neste final de semana, tem despertado esperanças de mudanças no quadro econômico global e no desenrolar da crise financeira. O fato da iniciativa ter partido do presidente americano, cuja economia, além de epicentro da crise tem um papel central no ordenamento econômico-financeiro internacional, indica sua relevância. Mas, há possibilidade real de encaminhamento de mudanças capazes de alterar de modo significativo as relações econômicas que caracterizaram a globalização?
Para analisar essas possibilidades comecemos com uma distinção na natureza das questões envolvidas. De um lado, temos os problemas de curto prazo de como lidar com o aprofundamento imediato da crise e de outro, assuntos de maior profundidade relativos à construção de uma ordem internacional mais estável e harmônica. Nesses dois planos, cruciais para chegar a um encaminhamento de saídas menos traumáticas e soluções duradouras, os EUA têm demonstrado uma postura distinta dos demais países.
Tomemos a questão mais imediata referente a como evitar o aprofundamento da crise. Aparentemente, os EUA seguiram o padrão dos demais países, pois o eixo da ação foi ampliar a liquidez e evitar o colapso do sistema financeiro. Mas as distinções da forma das ações foi essencial: a Europa preferiu a ação direta, assumido parte da propriedade dos bancos, enquanto os EUA só aderiram a esse princípio relutantemente. Na Ásia em desenvolvimento, o padrão de intervenção é distinto porque, exceto no Japão, o peso do sistema financeiro estatal é muito expressivo.
As ações de liquidez, se bem coordenadas terão como resultado evitar que a crise se aprofunde por meio da perda de valor ainda maior dos títulos, ou seja, a denominada deflação de ativos. Essa perda de riqueza financeira e imobiliária não é inócua, pois o número de participantes do jogo era muito elevado, sobretudo nos EUA. Assim, as empresas e as famílias estão se vendo diante de uma nova realidade; sua riqueza diminuiu enquanto as dívidas permaneceram. Logo, a reação natural será contrair os gastos de consumo ou investimento para pagá-las.
Para compensar o aperto do gasto privado e evitar uma recessão profunda há apenas uma ação eficaz: a elevação dos gastos públicos. Novamente, a postura dos EUA tem sido diferente dos demais países. A Europa, com a França em destaque anunciou uma ampliação expressiva do investimento público. Para não falar da China cujo acréscimo dos gastos públicos da ordem de US$ 600 bilhões é o mais significativo. Essa diferença de postura deverá conduzir a trajetórias distintas na resposta a crise acentuando o desempenho diferenciado dessas economias.
No plano estrutural, o conjunto dos países do G-20, – exceto os EUA – tem defendido a necessidade de uma maior regulação do sistema financeiro. Na prática isso significaria ampliar o controle do Estado sobre os preços-chave do sistema capitalista – taxas de juros e de câmbio – e limitar as ações especulativas nos mercados de títulos evitando a formação de bolhas. Para fazer isto não basta regular os sistemas financeiros nacionais. Dada a sua interligação, a ação para ser efetiva necessita alcançar o plano internacional, ou seja, deverá atingir os fluxos de capitais internacionais impedindo a evasão aos controles domésticos.
Até que ponto os EUA estariam dispostos a aceitar uma regulação dos fluxos de capitais internacionais cujo efeito seria restringir a globalização financeira? Isto significaria limitar o poderio do dólar, lastreado na dimensão e diversificação dos seus mercados financeiros garantido em última instancia pelo poder das armas. Prospectivamente, é possível imaginar uma perda de importância relativa da economia e moeda americanas, em razão do desempenho diferenciado das economias. Mas, seria razoável admitir que os EUA optariam por enfraquecer a sua moeda sacrificando-a ao altar da cooperação internacional? Essa opção não parece crível. O mais provável é que a ação proposta pelos EUA escamoteie algumas questões centrais apontando para a ampliação do peso das soluções nacionais ou regionais no desdobramento da crise.

Um comentário:

Felipe disse...

Lucas Krelic 2ºMC
lucaskrelic@hotmail.com

O mundo todo está sentindo a crise econômica que se iniciou nos estados unidos, mediante esta situação o grupo dos 20 paises "mais influentes" tomou para si a "responsabilidade" de, através de sucessivas reuniões apresentarem propostas para um alivio do sistema econômico mundial.
Deve-se ressaltar que um país sozinho não conseguirá resolver tal crise, daí tem-se a importância da unificação das idéias e experiências, para que juntos resolvam o problema por todos enfrentado.
A dificuldade notada nas negociações pode ser entendida como certo "orgulho", pois se destacam ali duas boas propostas (órgão de supervisão dos 30 maiores bancos do mundo e "interpol financeira") que não são aceitas pelos EUA e pelo FMI , sendo que o segundo se diz "responsável pela vigilância do sistema financeiro internacional" ( onde estava o FMI no inicio da crise então???). Nesta hora tem que deixar o orgulho e as diferenças de lado, nota-se isto uma vez que a reunião naum é limitada ao G7 (agora G8). Os paises emergentes que fazem parte do G20 tem que aproveitar essa inserção para mostrar de forma eficiente sua capacidade de, junto com os "paises grandes", resolver situações delicadas economicamente.
O principal foco da reunião seria, em minha opinião, evitar o aprofundamento da crise, e num segundo plano (em médio prazo) uma maior regulação do sistema financeiro mundial.